Era “tiro e queda” como diria meus vizinhos, todos acordavam cedo, assistiam aula e por volta das 11:30 já estavam chegando em casa pra assistir X-men, último desenho da TV Colosso/TV Globinho ou às vezes ouvir apenas o “Tá na mesa pessoallì” e esperar servir o almoço em casa.

Chegar, jogar a mochila de canto, tirar o tênis de um pé com o oposto e ouvir a mãe dizer: – Vai lavar as mãos que já tô colocando teu prato.

Após o almoço ficava enrolando com brinquedos e joguinhos enquanto começava o jornal e minutos depois logo se ouvia no portão: – Itallo, vamo brincar! Pronto, era a deixa pra sair correndo, abrir o portão e juntar a turma da rua para passar horas em frente a um tabuleiro, não importava se o dia era War, Banco Imobiliário, Imagem e Ação, Jogo da Vida ou até mesmo um feito por nós, chamado de Pokémon – Tabuleiro feito de compensado onde tinha desenhado um caminho de hidrocor com etapas que o seu pokémon (cartas que vinham no fandangos e tazos das elmachips) precisava passar para evoluir e que todo dia precisava ser refeito pois as “mentes pensantes” com suas mãos manchavam as informações ao conduzir o seu peão. A tarde levava horas e a concentração no jogo era total, precisava a mãe de um de nós dizer: – Passa pra casa agora se não quiser “levar um pisa”. Eu levava vantagem, já estava em casa.

Antes do sol deitar por completo era de praxe correr até a rua debaixo levando a bola de leite e montar as traves feitas lá mesmo com tijolos e galhos, ou ainda, recuperadas do dia anterior quando os carros não passavam por cima. Todos voltavam imundos e alguns até machucados por levar topadas no calçamento. A energia sobrava e era hora de fazer o dever de casa, ou seja, na hora que os pais chegassem do trabalho e dessem o visto você poderia barganhar uma ida as locadoras de vídeo-game ou chamar o pessoal pra brincar de pique-esconde, chegava a hora de dormir e assim era o nosso cotidiano.

O mais preocupante era saber o que vai acontecer no próximo episódio do desenho preferido, ou ter a responsabilidade de guardar o jogo de tabuleiro do amigo que deixou com você porque foi embora mais cedo, ou ainda ter a certeza que o trabalho de ciências do dia seguinte já foi desenhado na cartolina e é pra levar sem falta os comandos daquele combo do personagem de luta preferido do seu amigo que em troca ele disse que vai levar a figurinha do álbum da Copa do Mundo e você vai ganhar uma panela de pressão no comércio da esquina. Ufa, uma vida caótica, estressante e hoje, com certeza, ninguém quer voltar aos seus tempos de moleque, pois iriam estragar tudo.

Hoje ainda jogo tabuleiro e bola, vídeo-game e os trabalhos é que mudaram. O dia escolhido foi 12 de outubro, mas para ser criança não precisa nem um dia de presente.

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